
Groove que enche barriga, a música do MATCH é prova audível que é possível ousar sem medo. E usar as sólidas escolhas para definir um som que muita gente com décadas de experiência e subidas ao pódio ainda não alcançou.
Liderado pelo cantor, compositor, guitarrista e produtor Matheus Duarte o MATCH tem André Nisgoski na baixo e Val Ofílio na bateria. Um power trio sem a marca do virtuosismo inócuo e viajante, mas com a energia de uma geração que não desperdiça tempo nem recurso.
Nascido em Belo Horizonte e atualmente radicado em Curitiba, Matheus resolveu entrar na música aos oito anos, quando ouviu Led Zeppelin e pediu uma guitarra pra mãe. No meio dos anos 90 já tocava profissionalmente e, entre 1998 e 2006 liderou o grupo Poronga Joke, matriz de uma sonoridade pop bem cuidada e aprimorada em 2007, nos Estados Unidos. Lá trabalhou com a cantora Reah Valente como produtor, guitarista e compositor, com apresentações em espaços de respeito, como o antológico Whisky a Go-Go em Los Angeles.

De volta ao Brasil, logo estava na capital do Paraná. Lá montou o circo, ocupou os palcos, criou um grupo, produz artistas e trilhas e fez do Nico’s Studio sua sede e ponto de referência. Toca guitarra na banda Trivolve e participa de projetos de amigos e músicos afinados com suas ideias cada vez mais claras e objetivas.
Com groove no coração e no estômago, o MATCH apresenta uma bem temperada fusão de guitarras setentistas e sintetizadores, bateria com pegadas de anos 60 e 70 e batidas eletrônicas de timbres e velocidades atuais. Vintage e moderno, sem soar exagerado, nem datado. Tudo dançante, em clima de balada. Até as baladas.
Com produção assinada por Bruno Sguissardi, amigo de longa data e roqueiro incontestável o disco tem como referências básicas, identificáveis nas primeiras audições, Jamiroquai, Grand National, Kasabian, Lenine, Groove Armada, Stone Temple Pilots.
O disco abre com “Mais Um Minuto”, uma chamada pra pista com peso, dançante, eletrônica.
Segue com “O Engraxate”, com um pé no som psicodélico da geração Woodstock e bem vindos truques de estúdio, como inserção de som ambiente e um coral gravado na escadaria de um prédio de Curitiba. A história da letra, real, ouvida em 97 Foz do Iguaçu, é de um engraxate que pretendia ser médico para ajudar o próximo.
Com bateria sessentista e piano com timbre baseado num sample gerado no lendário estúdio Abbey Road, “Me Ensina a Sambar” tem ar quase didático, na proposta de uma cantada de alto grau de funcionalidade, cercada de eletrônica bem dosada por todos os lados.

“Planos”, a primeira assumidamente romântica, é a única faixa com desenhos de cordas.
“Enchendo a Barriga de Som”, primeira faixa de trabalho do disco, abre com um clima de Cream e pinta de tintas psicodélicas o velho drama do artista que faz música e esquece da vida prática. “É bem bacana caminhar pensando” é a frase que fica da música, que sintetiza o conceito do disco.
Um amigo que não se vê, mas sempre se sente, é o tema da dançante “Invisível”, um rock com guitarras marcantes, bateria eletrônica convivendo bem com bateria rock’n’roll.
“Troca”, grandiosa como um tema do U2, é outro tema que convida à dança e apresenta o arranjo mais elaborado do trabalho.
Mais cinematográfica e descritiva, “Dois Dias” é outro tema romântico e parte de um beijo real no arco do Washington Square, em Manhattan.
Meio que uma atualização de nostalgia, “Desenho” é uma música original do Poronga Joke, de 2002, que Matheus transforma num tema mais rasgado e dançante, com um mix de guitarra e teclados, bumbo real e eletrônico demonstrando o livre trânsito entre os dois universos.
O disco termina com “Não Fique Parado”, um rock’n’roll na linha sing along que reafirma o talento do compositor e sua veia pop que lhe garante boas chances de sucesso num mercado ávido por boas idéias executadas com esmero.
Num momento da indústria em que a produção de fonogramas costuma se amparar mais na utilização de efeitos e programas de edição do que na produção de música consistente, o surgimento de uma banda como o trio MATCH é promessa de dias melhores. A música, bem composta, bem embalada, com roteiro lógico e feita com conhecimento de causa, pode ser creditada à habilidade do trio, que já subiu ao palco com grandes estrelas e tem larga experiência de estúdio.
Em parceria com André Nisgoski e Val Ofílio bem firmada, dentro e fora dos palcos, Matheus usa, no disco, a boa experiência adquirida nos Estados Unidos e no Brasil. E promete uma carreira de sucesso para um grupo que chega ao primeiro disco com personalidade.

Por Kiko Ferreira, Belo Horizonte-MG.
Novembro de 2010.